
O que define o futuro de uma história? Se olharmos superficialmente, tendências literárias parecem apenas ondas de consumo passageiras — o vampiro que brilha num ano, a distopia política no outro. Mas, aqui no Planeta Onirium, preferimos olhar para as profundezas.
Uma tendência literária não é um acidente de marketing. Ela é o Zeitgeist — o espírito do tempo — manifestado em tinta e pixel. É a resposta coletiva de uma sociedade aos seus medos, desejos e traumas não processados.
Neste estudo, convido você a descer a toca do coelho comigo para dissecar o passado recente, entender a pulsação do presente e projetar as sombras e luzes dos próximos anos no mercado editorial.
1. O Retrovisor: A Queda da Torre de Marfim (2015–2024)
Para entender para onde vamos, precisamos analisar os escombros de onde viemos. A última década foi marcada por uma ruptura fundamental na estrutura de poder da literatura.
Da Autoridade para a Comunidade
Historicamente, o sucesso literário era “top-down” (de cima para baixo). Críticos, acadêmicos e grandes editoras decidiam o que era “boa literatura”. A última década, contudo, viu a ascensão da Validação Comunitária. O BookTube, e posteriormente o BookTok e o BookGram, tiraram o poder da crítica especializada e o entregaram à emoção do leitor. O livro viralizou não pela técnica perfeita, mas pela capacidade de fazer o leitor chorar, gritar ou se apaixonar na câmera.
O Efeito Pandêmico e o Escapismo
A pandemia global (2020-2022) foi um divisor de águas. O isolamento forçado acelerou dois movimentos opostos, mas complementares:
- A busca por conforto (Cozy): Leituras leves para suportar a realidade pesada.
- A busca pela catarse (Horror): O terror cresceu exponencialmente porque precisávamos de monstros fictícios que pudessem ser derrotados, já que o vírus lá fora era invencível.
2. O Pulso do Agora: O Leitor Híbrido e a Estética da Experiência (2025-2026)
Chegamos ao momento atual. O leitor de hoje não é mais um consumidor passivo; ele é um “Prosumidor” (produtor + consumidor), termo cunhado por Alvin Toffler, que agora atinge seu ápice na literatura.
A Multicanalidade e a Acessibilidade como Norma
Acabou a guerra “Físico vs. Digital”. O que vivemos hoje é a complementaridade.
- O Físico como Totem: O livro de papel tornou-se um objeto de fetiche, de coleção e, principalmente, de desconexão. É o refúgio analógico.
- O Áudio e o Digital como Acessibilidade: Aqui reside uma revolução silenciosa. O crescimento dos audiolivros e ebooks não é apenas sobre conveniência; é sobre inclusão. Pessoas com deficiência visual, neurodivergentes (TDAH, dislexia) ou com rotinas exaustivas encontraram no áudio a porta de entrada para a literatura. A tendência atual é a fluidez: começar lendo no Kindle e terminar ouvindo no carro.
O Renascimento do Gótico e o “Dark Comfort”
Estamos vendo uma estética sombria dominar. O gênero Romantasy (Romance + Fantasia) e o Horror Social mostram que queremos escapar, mas queremos levar nossas sombras junto. O conceito de “Dark Comfort” explica por que nos sentimos acolhidos em histórias de fantasmas e cemitérios: em um mundo caótico, a melancolia gótica oferece uma beleza ordenada e uma validação para a nossa tristeza.
3. O Horizonte: Hipersegmentação e Humanidade (2027-2030+)
Ao olharmos para o futuro, a neblina se dissipa e revela um cenário pautado pela tecnologia, mas sedento por alma.
A Teoria da Cauda Longa e o Fim do “Best-seller Universal”
Caminhamos para o fim da hegemonia da cultura de massa. O futuro é a Hipersegmentação. Baseado na teoria da Cauda Longa (Chris Anderson), o sucesso não será vender 1 milhão de cópias de um livro genérico para todos, mas vender mil cópias para mil micro-nichos apaixonados.
Teremos o “Terror Botânico”, o “Cyberpunk do Sertão”, o “Romance Gótico Futurista”. A personalização será a chave. O algoritmo conectará o leitor àquela história específica que parece ter sido escrita apenas para ele.
O Modelo “Centauro”: IA e Criatividade
A Inteligência Artificial não substituirá o escritor, mas mudará o processo. O futuro pertence ao Escritor Centauro: a metade humana (criatividade, dor, vivência, “alma”) guiando a metade máquina (produtividade, estrutura, organização).
O leitor saberá diferenciar. Quanto mais a IA produzir textos perfeitos e padronizados, mais o público valorizará a “falha humana”, a voz visceral, a estranheza e a autenticidade que só uma consciência biológica pode produzir.
A Descolonização e a Descentralização Geográfica
O futuro da literatura brasileira não mora mais apenas no Leblon ou na Avenida Paulista. A tendência é a descentralização radical. Veremos a explosão de narrativas vindas do interior — o horror de Minas Gerais, a ficção científica da Amazônia, a fantasia do agreste.
A “História Universal” dará lugar às “Histórias Locais”. O folclore brasileiro deixará de ser visto como “exótico” para ser a base de uma nova mitologia pop, rica e exportável.
Conclusão: A Escrita como Ato de Resistência
Diante de todas essas tendências — algoritmos, áudio, nichos e tecnologias — uma verdade permanece inabalável no centro do Planeta Onirium: a literatura é um ato de empatia.
Seja através de um microconto no celular ou de um calhamaço de fantasia na estante, o que buscamos é a conexão. O mercado pode mudar as ferramentas, mas a matéria-prima continua sendo a mesma que usamos desde as pinturas nas cavernas: o medo da morte, a busca pelo amor e a necessidade de dizer “eu estive aqui”.
Para nós, escritores e leitores do insólito, o futuro é brilhante. Porque quanto mais o mundo se torna complexo e tecnológico, mais necessária se torna a nossa capacidade de sonhar — e, às vezes, de ter pesadelos que nos ajudem a acordar.
Este artigo faz parte dos estudos do Universo Reallyme. Se você se identifica com o lado sombrio e poético da literatura, acompanhe nossos próximos lançamentos.


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