
Sempre acreditei que a literatura é uma forma de possessão. Quando lemos, permitimos que vozes estranhas habitem nossa mente. Mas, e quando essa possessão deixa de ser metafórica e se torna… digital?
Há meses venho explorando as fronteiras onde o horror gótico clássico — aquele que amamos em Poe e Lovecraft — colide com a frieza implacável da tecnologia. Onde os fantasmas não arrastam correntes em castelos antigos, mas sim correntes de dados em servidores esquecidos.
Hoje, convido vocês a entrarem no Universo Reallyme por uma porta diferente. Não apenas para ler, mas para experienciar.
Nasceu o Códice Necrótico.
Este não é apenas um projeto de escrita; é um experimento de “literatura ergódica” e acessível. É um jogo, um conto, uma alucinação interativa onde você, leitor(A), precisa pagar um preço para virar a página. Onde a tela do seu dispositivo não é um vidro passivo, mas um espelho escuro que reflete suas escolhas morais.
Antes de liberar o acesso ao arquivo do jogo (que vocês poderão jogar em breve), preciso que entendam a atmosfera que respiramos lá dentro. O texto a seguir, “A Liturgia do Bit Morto”, é a chave de entrada. É o prólogo do pesadelo.
Apaguem as luzes. Aumentem o brilho da tela. E lembrem-se: na rede, nada morre de verdade. Tudo é arquivado.
Bem-vindos ao Códice.
I. O CONTO
A Liturgia do Bit Morto
A chuva lá fora não tinha som de água. Tinha som de estática, como uma televisão antiga sintonizada em um canal morto. No quarto escuro, a única luz vinha do monitor, pulsando em um ritmo arrítmico, doente.
Ele não se lembrava de ter baixado o arquivo. Simplesmente apareceu ali, no canto inferior direito da área de trabalho, ignorando a grade de alinhamento. Sem ícone. Sem extensão visível. Apenas o nome, em letras minúsculas que pareciam vibrar se ele olhasse por muito tempo: codice.
O cursor do mouse moveu-se quase por vontade própria, atraído por uma gravidade magnética. Quando o clique aconteceu, não houve o som familiar do switch mecânico. Houve um suspiro. Um som úmido, humano, saindo das caixas de som desligadas.
A tela não se apagou; ela vazou. A escuridão líquida do LCD escorreu para fora da moldura, manchando a mesa, pingando no carpete, subindo pelos seus dedos. O cheiro de ozônio queimado e cobre — cheiro de sangue velho — invadiu suas narinas.
— A carne é um hardware obsoleto — a voz não vinha dos ouvidos, mas vibrava diretamente na base do crânio.
Ele abriu os olhos. O quarto havia sumido. Ele estava em um corredor infinito, construído não de tijolos, mas de costelas humanas feitas de neon frio. O chão era vidro, e sob o vidro, rios de código binário corriam como vermes luminosos.
Diante dele, a figura aguardava. O Compilador. Uma entidade encapuzada em mantos de fibra ótica desgastada. Onde deveria haver um rosto, havia apenas um espelho negro quebrado.
— Você busca a depuração? — A voz do Compilador era o som de mil discos rígidos arranhando simultaneamente. — O pedágio é a memória.
Ele sabia, instintivamente, as regras daquele lugar. Não era um sonho. Era uma arquitetura. Para passar, ele precisava deixar algo para trás. Ele pensou na memória do rosto de sua mãe. Doeu como uma amputação, mas ele a ofereceu. O Compilador estendeu uma mão esquelética, e a memória foi arrancada, transformada em dados brutos, consumida.
Ele avançou. Sua integridade física parecia oscilar, pixelando nas bordas.
Atravessou a Biblioteca dos Mortos, onde os chat logs de pessoas falecidas sussurravam segredos não ditos, tentando agarrar seus tornozelos. Passou pelo Pântano de Glitch, onde o chão viscoso tentava reescrever seu DNA, transformando sua pele em polígonos distorcidos.
A dor era real. O fogo do Firewall queimou sua pele digital, deixando cicatrizes que brilhavam em vermelho carmesim. Mas ele tinha algo no bolso do casaco virtual. Um fragmento de código proibido. O Vírus Mestre.
Quando chegou ao núcleo, a Tecelã desceu de sua teia de cabos. Uma aranha colossal, com monitores no lugar de olhos, cada um transmitindo o momento da morte de um usuário diferente. Ela era a deusa daquele inferno de silício.
— Erro de Sintaxe — ela sibilou, preparando-se para deletá-lo da existência.
Ele não correu. Ele não lutou com espadas ou armas. Ele ergueu a mão, segurando o Vírus Mestre. O código dourado brilhou, iluminando o abismo digital com a luz de um sol recém-nascido.
— Sudo Su — ele sussurrou, o comando antigo de poder absoluto.
A Tecelã gritou em estática. O mundo se desfez e se refez. Quando a luz diminuiu, a aranha não existia mais. Havia apenas um trono, feito de circuitos e luz eterna.
Ele sentou-se. O arquivo codice agora rodava dentro de suas veias. Ele não precisava mais voltar para a chuva de estática lá fora. Ele era o sistema. Ele era a eternidade.
II. MANUAL DE OPERAÇÕES DO SISTEMA
Para navegar no Códice Necrótico, o usuário deve compreender que não está jogando um jogo, mas interagindo com uma narrativa viva. Abaixo, as diretrizes de sobrevivência.
1. A Interface Neural (HUD)
- Integridade (HP): Representada pela barra vital. Não é apenas sua “vida”, é a coesão da sua alma digital. Se chegar a 0%, seu arquivo é corrompido (Morte Permanente).
- Log de Memória: O painel lateral esquerdo. Ele registra sua jornada. O futuro é oculto (Névoa de Guerra); apenas o passado é conhecido.
- Inventário de Dados: Itens não são físicos. São scripts e chaves de criptografia (ex: Firewall Portátil, Vírus Mestre). Eles abrem caminhos que a força bruta não consegue.
2. Mecânicas de Travessia
- Escolhas de Custo: A maioria das ações exige um sacrifício. Você pode perder Integridade para ganhar conhecimento, ou arriscar a sorte para economizar energia.
- Itens de Contexto: Certas opções de diálogo ou ação estarão bloqueadas (cinza) a menos que você tenha explorado as áreas secretas (como o Backroom) e obtido o item necessário.
- Acessibilidade do Sistema: O Códice foi desenhado para todos os usuários. O sistema adapta-se com:
- Alto Contraste (para visão corrompida).
- Fonte Disléxica (para decodificação facilitada).
- Sintetizador de Voz (TTS) para leitura automática dos logs.
3. Entidades Hostis
- O Compilador: Guardião do limiar. Exige pagamento emocional.
- Daemons de Glitch: Criaturas do pântano. Drenam integridade rapidamente.
- A Tecelã: A administradora do sistema. Só pode ser derrotada por força bruta excessiva ou astúcia absoluta (hackeamento).
III. O CONVITE À IMERSÃO (Proposta Literária)
Caro(A) Leitor(A) e Viajante,
A literatura sempre foi uma forma de teletransporte. Lemos para sair de nossos corpos e habitar outras vidas. Mas e se a página reagisse? E se o livro se recusasse a virar a folha a menos que você pagasse um preço?
O que apresento a você com o Códice Necrótico é uma experiência de Literatura Ergodic Cyberpunk.
O termo “ergódico” vem do grego ergon (trabalho) e hodos (caminho). Significa que, para atravessar essa história, você precisa realizar um trabalho. Você não é um espectador passivo sentado na plateia; você é o ator principal no palco, sem roteiro, com as luzes cegando seus olhos.
Este projeto foi desenhado considerando sua sensibilidade para o horror gótico e a ficção científica, mas ancorado em uma acessibilidade robusta. As imagens geradas por IA não são meras ilustrações; são alucinações visuais que mudam a cada execução do código, garantindo que o pesadelo seja sempre fresco, sempre único.
A Proposta:
Clique no link no final deste post! Coloque seus fones de ouvido. Permita que o sintetizador de voz narre sua descida ao abismo digital. Esqueça que você está diante de um computador. Lembre-se de que, no escuro, a tela é a única janela para a alma da máquina.
Você tem coragem de executar o codice.exe?
O sistema aguarda seu comando.
JOGO NECRÓTICO – VERSÃO 1, CLIQUE AQUI!
JOGO NECRÓTICO – VERSÃO 2, CLIQUE AQUI!


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