
Saudações, almas viajantes do Onirium.
Hoje, no calendário terreno, celebramos a convergência entre os mundos: o Dia de Finados, ou o Dia dos Mortos. É um momento em que o véu que separa a vida da sombra se torna mais tênue, permitindo que os ecos dos que se foram ressoem em nossa realidade. A morte não é o ponto final, mas sim uma curva na eternidade. O que faremos com esse portal aberto, com essa visita?
🖤 Origens e o Fundamento da Veneração
A celebração dos mortos é uma das práticas mais universais da humanidade, um reflexo do nosso pavor e, paradoxalmente, da nossa esperança na continuidade.
A Instituição Cristã: O Dia de Finados
No Brasil, a data de 2 de novembro é celebrada como o Dia de Finados, uma tradição profundamente enraizada no catolicismo.
- História: A data foi estabelecida formalmente no final do século X por um monge beneditino (Odilo de Cluny) para honrar todos os fiéis falecidos, uma prática que se espalhou pela Igreja Ocidental. Desde o século II, cristãos já rezavam pelos falecidos e visitavam os túmulos dos mártires.
- Ritual no Brasil: É um dia de pesar e saudade, onde a prática é visitar cemitérios, limpar e decorar as sepulturas com flores, acender velas e comparecer a missas para rezar pelas almas dos que partiram, buscando a intercessão para sua ascensão ao Paraíso.
O Festim Cósmico: Día de Los Muertos (México)
O contraponto mais vibrante e globalmente conhecido é o Día de Los Muertos mexicano, uma manifestação cultural declarada Patrimônio Cultural Imaterial da Humanidade pela UNESCO em 2003.
- Origens: A celebração é uma fascinante mistura de tradições pré-hispânicas (povos como astecas e maias cultuavam seus ancestrais muito antes da colonização) e ritos católicos (os espanhóis alteraram a data para coincidir com o Dia de Todos os Santos e Finados). Para as culturas asteca e maia, a morte não era um fim, mas uma transição, uma parte do ciclo de vida que se retroalimenta.
- A Visita e os Altares: A crença central é que as almas dos falecidos retornam para visitar suas famílias. Para recebê-los, são montados coloridos e elaborados Altares de Mortos (Altares de Muertos), que podem ter de 2 a 7 níveis.
- Oferendas (Ofrendas): O altar é adornado com fotografias, água, sal, incenso, velas, e os pratos e bebidas preferidas do falecido (como o Pão de Mortos). As flores de cempasúchil (calêndula, que lembra o Sol) guiam as almas com seu aroma e cor vibrante.
- Símbolos: As famosas Caveiras de Açúcar (calaveras dulces), muitas vezes com o nome do morto, e a figura da Catrina (um esqueleto de dama com chapéu, que zomba da vaidade) são ícones da festividade, representando a morte de forma alegre e irônica.
Rituais Outras Culturas: O Vínculo Global
A veneração aos ancestrais se manifesta de maneira única ao redor do globo:
- Japão (Obon/Bon Festival): Celebrado em agosto, o festival de três dias reúne famílias para honrar os ancestrais. Um ritual noturno envolve acender e colocar lanternas de papel em rios ou lagos para guiar os espíritos de volta ao mundo espiritual.
- Guatemala: As almas dos mortos são liberadas por 24 horas para retornar. Se a casa não estiver preparada com comida e flores para recebê-los, o espírito mal recebido pode causar danos. Uma tradição notável é soltar pipas coloridas nos cemitérios; o som delas é visto como um meio de afastar os maus espíritos e ajudar os bons a seguirem em paz.
- Bretanha (Europa): As pessoas visitam os cemitérios ao anoitecer para ungir as lápides com água benta ou leite. Ao se deitarem, o jantar é deixado na mesa para as almas.
🕯️ Análise Sombria: Literatura Gótica e a Morte como Arquétipo
Na literatura e na psicologia do terror, o Duplo, como discutimos em transmissões anteriores, é a manifestação da nossa identidade reprimida, o lado sombrio que negamos. No Dia dos Mortos, essa sombra se expande para o pavor da substituição e do apagamento.
- A Morte Subtraída: Enquanto o Dia dos Mortos celebra a lembrança, o horror reside na possibilidade de a morte não levar apenas a vida, mas a própria memória e identidade do falecido, sendo substituído por uma versão “melhor” ou “mais aceitável” (como no conto de David/Matheus).
- O Duplo em Festa: O alegre Día de Los Muertos mexicano, com suas caveiras sorridentes, nos lembra da fragilidade da vida. Mas no tom Gótico, essa alegria se torna zombaria. O esqueleto alegre (calavera) é a representação fria de que, não importa o quão rico ou poderoso se seja, a morte nos iguala e nos expõe (ideia por trás da Catrina). É a dança final onde a vaidade da vida é despida por uma caveira que ri.
🪁 Conto: O Ritual do Papel Molhado

O ar em Santiago Sacatepéquez, na Guatemala, era rarefeito e frio, carregado com o cheiro de incenso de copal e milho assado. Era 1º de novembro, e o cemitério, aninhado entre as montanhas, fervilhava. Não de luto, mas de cores.
Domingo Chocoj González, um ancião com rugas profundas como vales de obsidiana, observava o céu. Seus olhos, de um castanho opaco, procuravam as pipas gigantes, coloridas e intrinsecamente desenhadas — os Barriletes Gigantes. Domingo era o último artesão de sua linhagem a dominar o ritual do papel molhado, a técnica que, diziam, garantia que a mensagem da pipa fosse lida pelas almas.
A tradição guatemalteca afirma que as pipas são o cordão umbilical do Dia dos Mortos. Elas são soltas nos cemitérios com a crença de que seu voo alto e o som do papel ao rasgar afastam os espíritos malignos, enquanto os bons são guiados em paz.
Mas a pipa que atormentava Domingo era a que jazia inacabada em sua oficina, a poucas quadras do cemitério. Era o Barrilete que ele fazia para sua neta, Isadora Pax Quiejú, que havia morrido de forma misteriosa um ano antes. Isadora não estava em paz.
A pipa de Isadora era diferente. Não carregava cores alegres ou desenhos de pássaros; era um mosaico de papel de seda preto e roxo, com um único motivo recorrente: um olho estilizado, sempre aberto. Domingo sentia que o vento não queria levá-la.
No ano passado, ele voara uma pipa para Isadora, como dita a tradição. Naquela noite, o ritual do Fiambre — o prato festivo e complexo que só se come neste dia — foi celebrado com um sorriso forçado. Mas a pipa de Domingo não afastou nada. Pelo contrário, ela parecia ter aberto um portal indesejado.
Após o Fiambre, os pesadelos de Domingo começaram. Ele via Isadora nas sombras, não como uma alma feliz, mas como uma figura molhada, encharcada pela chuva que nunca caía no cemitério. Ela não falava; apenas apontava para o céu.
Naquela manhã, ao checar o cemitério antes de soltar a pipa de Isadora, Domingo notou algo perturbador no túmulo de sua neta. Havia um pedaço de papel de pipa colado na lápide, molhado, embora não tivesse chovido. O desenho era simples: um fragmento do mesmo olho estilizado que ele pintava na pipa inacabada.
No início da tarde, enquanto o sol ainda estava alto, o sobrinho de Domingo, Gaspar Ixmucané Toc, que morava a quilômetros de distância, apareceu no cemitério com um ar de loucura. Gaspar, um homem forte e cético, tremia.
“Tio, o céu… o céu está rasgando,” ele sussurrou, a voz rouca.
Gaspar explicou que sua pipa, que ele havia voado no dia anterior, tinha voltado em pedaços. E o pior: nas bordas rasgadas do papel de seda, havia gotas de água limpa, com cheiro de naftalina e terra molhada. Ele sentia que os maus espíritos, que deveriam ter sido afastados pelo som da pipa, haviam voltado com a pipa rasgada, trazendo algo com eles.
Domingo ligou os pontos. A umidade constante nas aparições de Isadora; o papel molhado na lápide; as gotas de Gaspar.
A lenda diz que as pipas soltas na Guatemala não são apenas para guiar. Elas costuram o tecido do céu que se rasga no Dia dos Mortos, impedindo que entidades que não são almas (mas sim predadores dimensionais) entrem no mundo dos vivos. A alma de Isadora não estava voltando; ela estava tentando alertar que o portal estava desprotegido.
A pipa de Domingo para Isadora, a inacabada, tinha que ser o último remendo.
Ao entardecer, as famílias começaram a recolher suas pipas, o ritual de costura do céu estava quase completo. Mas Domingo correu para sua oficina. Ele terminou a pipa de papel preto e roxo, fixando o último olho de seda.
Ele a levou para o campo de voo, a terra fria sob seus sapatos. Gaspar tentou detê-lo, mas Domingo estava determinado. Ele não ia afastar espíritos malignos. Ele ia aprisionar a sua neta.
Quando a pipa preta e roxa subiu, ela não zuniu alegremente. O som que veio do céu foi um grito longo e úmido, como um tecido rasgado sendo costurado com força.
O olho de seda na pipa brilhou.
Gaspar viu o momento em que a pipa alcançou sua altura máxima. No mesmo instante, uma figura esguia, pingando água e lodo, desceu do céu, não do alto, mas de trás da pipa. Era Isadora.
Mas seus olhos não eram gentis. Eram os mesmos olhos vazios e estilizados que Domingo havia desenhado no papel. Ela não estava voltando como alma, mas como o agente de fechamento do portal.
Ela flutuou sobre a lápide, parou, e virou-se para Domingo. Sua voz era a do papel molhado:
“Obrigada, Tata Domingo. A costura está completa.”
No mesmo momento, a pipa se incendiou no céu, virando uma estrela fugaz de papel e bambu. O cheiro de copal foi substituído pelo cheiro de carne queimada.
A última coisa que Domingo Chocoj González viu foi sua neta, Isadora Pax Quiejú, a guardiã molhada do portal, sorrindo com um sorriso que não era humano, antes que a escuridão do Dia dos Mortos o engolisse para sempre.
Gaspar Ixmucané Toc foi encontrado na manhã seguinte, sentado ao lado do túmulo de seu tio, abraçado a uma única lágrima de seda molhada. Ele nunca mais voou pipas.
A tragédia final do conto reside na ironia. A pipa que deveria guiar a paz e afastar os males, se torna a ferramenta para aprisionar uma alma, ou pior, para trazer uma entidade que se disfarça de memória. O amor de Domingo, em vez de salvar, completou o feitiço sombrio.
O Que Você Vê Com Seus Olhos Agora?
Seja na tristeza contida do Finados brasileiro, na alegria vibrante do Día de Los Muertos mexicano, ou no mistério das pipas guatemaltecas, este dia é um lembrete: a fronteira entre a vida e o que jaz além é frágil.
Qual é o seu ritual, Onirium, para garantir que as almas que você ama sigam em paz e que os predadores permaneçam do lado de lá?
Compartilhe o seu rito e a sua sombra!


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