O Coração de Skadi: Quando a Vingança Cansa de Ser Frio

Contextualização: O Fio Tênue entre Gigantes e Deuses
A mitologia nórdica é construída sobre o conflito perpétuo entre os Aesir (os deuses de Asgard, como Odin, Thor e Frigg), e os Jötnar (os gigantes, seres de natureza e caos, frequentemente ligados ao gelo e ao frio). O nosso conto, “O Coração de Skadi”, se baseia na figura de Skadi, a Deusa do Inverno, uma Jötunn (giganta) que foi aceita em Asgard como parte de um acordo de paz. Ela é filha do gigante Thjazi, assassinado pelos deuses.
Skadi é a encarnação do inverno eterno, da caça com arco e flecha, dos esquis e das montanhas. É a face implacável do Norte, a deusa da vingança que, na mitologia tradicional, é quem coloca a serpente venenosa sobre a cabeça de Loki quando ele é aprisionado. No conto, ela é a “Senhora da vingança e da nevasca” e “Exilada dos Aesir”.
Desenvolvimento dos Personagens no Conto:
- Skadi, a Deusa: Ela é apresentada como a personificação do frio e da fúria, com a pele azulada e olhos de gelo partido, que jamais esqueceu o cheiro do sangue. Seu poder é tamanho que, a cada passo, o mundo congela. Na mitologia, Skadi representa o rigoroso inverno nórdico, mas no conto, sua ambição se torna política: ela deseja um reino, e o fim da era dos homens.
- Brynhild, a Herdeira: O nome Brynhild (ou Brunilda) remete às famosas Valquírias da mitologia nórdica, mulheres guerreiras que serviam a Odin. No conto, Brynhild é a herdeira de Skadi por juramento, não por linhagem. Ela implorou por vingança após sua vila ser destruída, e o beijo de Skadi a tornou eterna e imune ao frio. Sua função é caçar as sombras e vingar os mortos. O conflito central da personagem é se libertar da maldição da vingança pura, lembrando-se da compaixão e do calor que sentiu ao lado da irmã, Liv.
Introdução ao Conto: Inverno na Ravina
A narrativa nos leva diretamente para a ravina nórdica, no exato momento em que o frio e o som de sinos metálicos, vindos de parte alguma, anunciam que a caçada começou. Brynhild, com seu machado às costas, sabe que os deuses se lembram deles.
Mas, o que deveria ser um sinal de caça, transforma-se em um aviso: os sinos não anunciam presa, mas sim, a chegada de caçadores. Três figuras a aguardam, incluindo o homem de elmo de corvo (uma possível alusão a Odin) e a sombra (que representa a memória de sua irmã). A caçada de Skadi por vingança saiu de controle, e o sangue derramado não aplaca a dor, apenas a multiplica.
Prepare-se para testemunhar a rebelião da campeã contra a Deusa, no pico de um fiorde onde a aurora dança com cores de ferida.
O Coração de Skadi
I. O Anúncio do Gelo
O frio chegou antes de qualquer presságio sonoro. Primeiro, a brisa esquelética que tornava o sangue viscoso e os pensamentos em pedra. Depois, o som. Não o urro do vento ou o gemido dos pinheiros. Eram sinos metálicos, pequenos e agudos, que não vinham de lugar algum e reverberavam com uma frequência impossível entre os pinheiros ancestrais.
Brynhild soube, com a certeza amarga que só o juramento traz, que a caçada havia começado.
— Eles voltaram… — sussurrou, a voz raspando na garganta congelada. — Os deuses ainda se lembram de nós.
A mão dela apertou o cabo de ferro bruto do machado preso às costas. Desceu a trilha da ravina, onde o vento, como um lamento furioso, dobrava os galhos secos em contorções de dor.

II. A Herança do Inverno
Diziam os anciãos que, quando o primeiro fragmento de gelo partia o reflexo da estrela mais fria sobre os fiordes e os lobos calavam o uivo por temor, a caçadora do gelo despertava.
Skadi.
Deusa do inverno eterno. Senhora da vingança e da nevasca. Exilada dos Aesir, filha do gigante Thjazi, Rainha dos ermos que jamais puderam lavar o cheiro do sangue. Sua pele, de um azul-pálido, emanava o frio original do Niflheim.
Brynhild era sua herdeira. Não por sangue, mas por um juramento que gelava a alma.
III. O Beijo e a Maldição
Anos antes, quando as muralhas de sua vila se desmancharam em chamas e aço, Brynhild se arrastou sobre as cinzas escaldantes e implorou por justiça.
No pico da montanha, entre corvos e o relâmpago de um céu partido, ela encontrou Skadi — alta como um pico de gelo, com os olhos feitos de cristal trincado.
— Ofereces tua alma por um único fio de vingança? — perguntou a deusa, a voz como o rolar distante de avalanches em cadeia.
— Ofereço o que for preciso. Meu futuro, minha memória, minha humanidade.
Skadi a beijou na testa. O toque foi como ser mergulhada em um lago sob zero. Desde então, Brynhild não envelhecia. Não sentia frio. Caçava as sombras em nome da deusa do Norte — e das vítimas que não tiveram voz para vingar os próprios mortos.
Mas naquela noite, a história mudou de curso. Os sinos não anunciavam presas. Eles anunciavam um ultimato.
IV. A Emboscada na Clareira
Na clareira branca como os ossos dos antigos reis, três figuras a aguardavam.
A primeira trajava um elmo de corvo com olhos opacos e segurava uma lança cujo corpo sussurrava em runas esquecidas. A segunda usava o manto da noite estrelada, e sua pele era da cor da terra molhada. A terceira era apenas um vazio — uma sombra sem massa, mas com presença.
— Brynhild, filha do gelo — disse o homem de elmo. A voz dele era pesada, de quem carrega segredos ancestrais. — Foste longe demais. Cruzaste a linha.
— Fiz o que me foi ordenado. Vingança foi meu juramento.
— Não há mais equilíbrio. O sangue que derramas não aplaca a dor da tua perda. Apenas a multiplica em ecos.
— E que deus entende de dor? — Brynhild desafiou, o olhar fixo no elmo.
O homem sorriu, um movimento sombrio sob o metal.
— Todos nós. Até aquele que sangra pendurado na Árvore do Mundo.
Ela ergueu o machado, o metal refletindo o luar.
— Vieram me deter?
— Viemos te lembrar do que foste — disse a figura de manto estrelado. — Antes de Skadi. Antes do juramento. Antes da maldição.
V. O Lamento da Sombra

Brynhild hesitou. O peso do machado, que nunca a incomodou, pareceu agora insuportável.
A sombra sem massa se aproximou, e o frio diminuiu momentaneamente, substituído por um calor que doía.
— Lembras-te do nome de tua irmã? — sussurrou a sombra, com uma voz fina, de infância, que quebrou a muralha de gelo em seu peito.
O coração de Brynhild vacilou. Liv.
Por um instante, ela sentiu o cheiro do pão assando na cabana dos pais. O calor sufocante da lareira. Viu os cabelos dourados da pequena Liv, o riso leve.
Então veio o grito. O fogo. A gargalhada bêbada dos guerreiros enquanto tudo virava cinzas.
A memória se partiu de novo, mas dessa vez, deixou uma ferida quente.
— Isso… isso não muda nada — ela murmurou, a voz quase inaudível.
— Muda tudo — disse o homem de elmo, dando um passo adiante. — Porque o inverno está quebrando, e Skadi quer mais que vingança. Ela quer um reino. Ela quer que o tempo congele com ela no trono.
VI. A Fúria da Jötunn
No alto do fiorde, a aurora rugia em espirais verdes e vermelhas, não como um espetáculo, mas como uma ferida aberta no céu. Dela, desceram cavalos feitos de tempestade, arqueiros de gelo e espectros de guerras milenares.
Skadi marchava à frente.
Ossos de urso polar adornavam seus ombros. Seus olhos brilhavam com a fúria do vazio. A cada passo que dava sobre o gelo, uma nova rachadura se abria na face do mundo.
— O tempo dos homens acabou — proclamou, com a voz que rachava pedras em silêncio. — E nem mesmo os deuses de Asgard verão o degelo.
Brynhild se pôs de joelhos, não em submissão, mas em advertência.
— Minha senhora, eles disseram que queres um trono. Que não basta mais caçar sombras… que desejas reinar sobre o vazio.
Skadi a ergueu pelo queixo, o toque de seus dedos como uma picada de gelo mortal.
— Dei-te poder. Dei-te propósito. Eu te salvei da fraqueza. Agora, dás-me dúvidas?
— Digo-te que o norte não canta apenas a guerra — rebateu Brynhild, a dor ardendo em sua testa. — Ele canta lembrança. Ele canta compaixão.
— Fracos cantam. Fortes vencem, e governam.
Brynhild fechou os olhos, resistindo ao frio. Quando os abriu, a imagem de Liv não era mais apenas uma memória: era a esperança que Skadi havia tentado beijar para fora de sua alma.
VII. O Lamento do Combate
Na ponte de gelo que se estendia para o mundo dos homens, Brynhild aguardava. Skadi vinha sozinha. Os espectros haviam caído, os caçadores se perderam na tempestade. Restava apenas a Jötunn e sua campeã rebelde.
— Traíste-me, Brynhild — sibilou Skadi.
— Liberto-me.
— Lutarás contra mim, a deusa que te deu a eternidade?
— Luto pelo que fui. Luto pelo que seremos. Luto pela memória das que não podem lutar.
Skadi não sorriu. Apenas ergueu o cajado feito de uma ponta de geleira.
O vento soprou, um uivo cortante como mil lâminas. As estrelas, acima, se apagaram em protesto.
E então veio o som. Não dos sinos de caça, mas dos sinos do fim.
O combate durou o tempo de um trovão, mas ecoou por milênios.
Machado contra gelo primordial. Fúria congelada contra propósito aquecido pela memória.
E no fim, Brynhild tombou, sim — mas o machado atingiu o cajado, rachando-o.
Skadi cambaleou. De seus olhos de gelo, escorreu uma lágrima. Não era neve, nem geada. Era sangue.
— Por que sangras, deusa? — sussurrou Brynhild, arfando na neve.
— Porque me lembrei — a voz de Skadi era um sussurro, sem o rolar da avalanche.
— Do quê?
— De minha mãe. Das histórias antes das batalhas. Do calor que já senti.
E pela primeira vez em incontáveis invernos, Skadi recuou.
Não como covarde que teme a derrota.
Mas como alguém que, por um instante, ouvia a canção do norte não como marcha de guerra — e sim como um lamento por toda perda.
VIII. A Guardiã da Aurora
Dizem que, desde aquele dia, o inverno passou a ter fim. Que o frio ainda chega, com sua beleza implacável, mas parte com a aurora.
Que os lobos ainda caçam, mas os sinos agora anunciam esperança, não a morte.
E que, entre os pinheiros brancos do fiorde silencioso, uma mulher caminha sozinha, com o machado às costas e o nome da irmã tatuado no peito.
Quando os ventos gélidos sopram do norte, ela sussurra:
— Eu me lembro. E ainda guardo o norte.
Conclusão: O Degelo da Memória
O confronto final entre Brynhild e Skadi não é sobre força bruta, mas sobre a força da memória. Ao final do “combate que durou o tempo de um trovão”, Skadi cambaleia e, pela primeira vez, verte algo que não é neve. Ela sangra porque se lembrou: de sua mãe, das histórias antes das batalhas, e do calor que já sentiu. A ação de Brynhild quebra o ciclo de vingança, forçando a Deusa do Inverno a recuar e a ouvir a canção do norte não como marcha de guerra, mas como lamento.
Graças a essa batalha, o inverno passou a ter fim, partindo com a aurora. Brynhild agora caminha sozinha, com a memória da irmã e o dever de guardar o norte, garantindo que o ciclo do gelo não se torne eterno. É o triunfo da compaixão sobre a fúria congelada.
Nota Final do Autor:
“O Coração de Skadi” é uma meditação sobre o peso da vingança na alma. O Duplo, como vimos em ‘A Sombra na Janela’, busca a substituição total, o apagamento. Aqui, a maldição de Skadi sobre Brynhild funciona como um duplo de propósito, substituindo o calor da família pela frieza do machado. A redenção, contudo, só é possível quando Brynhild recupera sua história — sua ‘cicatriz’ apagada — na forma de sua irmã Liv. A verdadeira liberdade não está em matar o agressor, mas em resgatar aquilo que se perdeu por causa dele.” (BRUNO REALLYME)


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